Cada vez mais mulheres realizadoras no Festival de Cinema de Cannes, mas igualdade continua longe

Cada vez mais mulheres realizadoras no Festival de Cinema de Cannes, mas igualdade continua longe

Este ano, cinco mulheres concorrem ao prémio da Palma de Ouro, num total de 22 filmes selecionados, um número que tem vindo a aumentar gradualmente nas últimas duas décadas.

RTP /
A atriz e produtora americana Demi Moore posa no palco durante a cerimónia de abertura e exibição do filme The Electric Venus no 79.º Festival de Cinema de Cannes, no sul de França, a 12 de maio de 2026. Sameer Al-Doumy / AFP



Este ano, os franceses têm uma presença particularmente forte na competição pela Palma de Ouro: cinco filmes numa seleção de vinte e dois. E, pela primeira vez, há mais mulheres realizadoras do que homens. Três delas apresentam filmes na Seleção Oficial: Jeanne Herry, Léa Mysius e Charline Bourgeois-Tacquet.

Aclamada pelo sentido de realismo e pela direção precisa dos actores, Jeanne Herry é a realizadora de Pupille (2018), nomeado sete vezes para um César, e Je verrai toujours vos visages (2023). O seu terceiro filme, Garance, a história de uma jovem atriz que enfrenta o alcoolismo, é protagonizado por Adèle Exarchopoulos. Embora tenha escrito o argumento e os diálogos de Le Royaume, de Julien Colonna, apresentado em 2025 na seleção Un Certain Regard, esta é a sua primeira participação na Competição Oficial.

A mais jovem e experimental Léa Mysius, 37 anos, já realizou Ava (2017) e Les Cinq Diables (2022, na seleção da Quinzena dos Realizadores de Cannes desse ano), e co-escreveu Emilia Pérez, realizado por Jacques Audiard. A sua terceira longa-metragem, Histoires de la nuit, é uma adaptação do romance homónimo de Laurent Mauvignier. Tal como Jeanne Herry, esta é a sua primeira participação na Competição Oficial como realizadora. No entanto, já tinha co-escrito e co-realizado Estrelas ao Meio-Dia, de Claire Denis, que ganhou o Grande Prémio do Júri em 2022. Também trabalhou anteriormente em Les Olympiades, de Jacques Audiard, e em Roubaix, une lumière, de Arnaud Desplechin, ambos na corrida à Palma de Ouro em 2021 e 2019. Em 2014, enquanto estudante na Fémis, apresentou uma das suas primeiras curtas-metragens, Les Oiseaux-Tonnerre, no âmbito da competição Cinéfondation, que apresenta anualmente filmes de estudantes de escolas de cinema.

Charline Bourgeois-Tacquet, por sua vez, tem sido uma presença regular na Semana da Crítica, onde apresentou a segunda curta-metragem, Pauline asservie, em 2018, bem como a primeira longa-metragem, Les Amours d'Anaïs, em 2021, numa sessão especial. Em 2026, é o seu segundo filme, La Vie d'une femme, que está a concorrer à Palma de Ouro. Léa Drucker interpreta uma cirurgiã e chefe de departamento de um hospital cujo equilíbrio é perturbado pela chegada de Frida, uma romancista interpretada por Mélanie Thierry.Recorde de 33% de mulheres até 2023 Dos 22 filmes que concorrem à Palma de Ouro, que será atribuída por Park Chan-wook e pelo júri, cinco são realizados por mulheres. A par das três francesas, encontram-se a realizadora alemã Valeska Grisebach, com L'Aventure rêvée, e a realizadora austríaca Marie Kreutzer, com Gentle Monster, protagonizado por Léa Seydoux e Catherine Deneuve.

Este ano, as mulheres realizadoras representam 23% da competição. Entre 2021 e 2025, representaram uma média de 25%, com um ano recorde em 2023, quando seis mulheres foram selecionadas (ou seja, 33% da seleção), de acordo com o coletivo 50/50, que luta por uma maior igualdade na indústria cinematográfica. O coletivo observou uma proporção crescente de mulheres nesta prestigiada seleção: representaram uma média de 3% entre 1946 e 1980 e 12% entre 2011 e 2020.
Thibaud Moritz / AFP

Em 2018, quando foi criada a Carta "pela paridade e diversidade nos festivais de cinema, audiovisual e imagem em movimento", 82 mulheres do setor subiram os degraus vermelhos de Cannes para celebrar um passo no sentido de uma maior transparência por parte dos festivais no que diz respeito aos filmes selecionados. 

No entanto, os últimos anos têm sido marcados por alguns lampejos de brilhantismo: A Palma de Ouro de Julia Ducournau por Titane, em 2021, seguida da de Justine Triet, em 2023, por Anatomia de uma Queda. Nenhuma realizadora ganhava este prestigiado prémio desde Jane Campion, em 1993, com O Piano. O Grand Prix, o segundo prémio mais prestigiado do Festival de Cannes, foi atribuído a um número ligeiramente superior de mulheres do que de homens: seis em 56 edições.

Como o CNC (Centro Nacional de Cinema e Imagens Animadas) observou no seu relatório, e como o coletivo 50/50 continua a sunlinhar, as barreiras à entrada das mulheres realizadoras são estruturais

Embora metade dos estudantes que se licenciam em cinema sejam mulheres, enfrentam um teto salarial muito mais baixo do que os homens. De acordo com o CNC, as realizadoras serão responsáveis por uma média de 28% das estreias nas salas de cinema entre 2015 e 2024 [os dados relativos aos últimos dois anos ainda não foram publicados]. 

Trata-se de um aumento real e progressivo: em 2005, eram apenas 20% e, no início dos anos oitenta, menos de 10%.

A maior parte das associações que lutam por uma maior igualdade de género na indústria estão de acordo: o principal problema é o acesso ao financiamento. Segundo o CNC, o custo médio de um filme realizado por uma mulher era 39% inferior ao de um homem em 2024. As produções de grande orçamento são mais frequentemente atribuídas a realizadores masculinos. 

Por outro lado, as realizadoras têm mais dificuldade em fazer um segundo ou terceiro filme, o que cria um círculo vicioso: menos orçamento significa menos visibilidade e, por conseguinte, menos hipóteses de financiamento para projetos futuros.

Desde janeiro de 2019, o CNC tem vindo a introduzir um "bónus de paridade" de 15% de apoio ao cinema, em colaboração com o coletivo 50/50. No entanto, o balanço do grupo é dececionante, com uma estagnação desde 2022: apenas cerca de 35% dos filmes são elegíveis todos os anos.


Lison Chambe / 13 maio 2026 06:05 GMT+1

Edição e Tradução / Joana Bénard da Costa - RTP
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